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A cura de um paralítico (João 5, 1-18) PDF Imprimir E-mail

O terceiro milagre no Evangelho de Jo√£o

¬†As festas em Jerusal√©m: - Pela segunda vez Jesus sobe a Jerusal√©m, mas desta vez n√£o vai ao templo, mas sim encontrar-se com o povo marginalizado, ou seja, as ovelhas sem pastor. Cura um paral√≠tico. A figura do enfermo representa a massa dos oprimidos, o povo exclu√≠do da festa. A festa da P√°scoa era tamb√©m chamada a ‚Äúfesta dos judeus‚ÄĚ, como se pode ver na primeira vez que Jesus foi a Jerusal√©m: - ‚ÄúEstando pr√≥xima a P√°scoa dos judeus, Jesus subiu a Jerusal√©m‚ÄĚ (Jo 2,13). Aqui no contexto da cura deste paral√≠tico, n√£o se menciona a P√°scoa, mas somente a festa dos judeus: - ‚ÄúAlgum tempo depois era festa dos judeus e Jesus subiu a Jerusal√©m‚ÄĚ (Jo 5,1). Deduz-se, portanto, que tal festa, seja a da P√°scoa. Outras tr√™s festas s√£o citadas no evangelho de Jo√£o: - a festa da P√°scoa (Jo 6,4); - a festa das Tendas (Jo 7,2); - a festa da Dedica√ß√£o (Jo 10,22). O ponto de partida deste milagre √© a festa. ‚Äď ‚ÄúJesus subiu a Jerusal√©m‚ÄĚ. Era necess√°rio subir muito para chegar ao alto da montanha, onde est√° localizada a cidade.

A piscina de Betesda: - O epis√≥dio come√ßa pela descri√ß√£o de um ambiente. Jo√£o alude aqui alguns temas que v√£o aparecer depois em outras passagens do seu evangelho, especialmente o discurso sobre o bom pastor e as ovelhas (Jo 10). A chamada ‚ÄúPorta das Ovelhas‚ÄĚ, bem conhecida de todos em Jerusal√©m, era por onde entravam os rebanhos na capital e que eram sacrificados no templo. H√° uma refer√™ncia √†s ovelhas que Jesus expulsou do templo na primeira vez que foi a Jerusal√©m: - ‚ÄúNo templo, encontrou os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas em suas bancas‚ÄĚ (Jo 2,14). A piscina era dividida ao meio com cinco p√≥rticos, onde aflu√≠a grande n√ļmero de doentes, cegos, coxos e paral√≠ticos que ficavam esperando o movimento da √°gua para entrar dentro. O povo atribu√≠a a esta √°gua um poder terap√™utico sobrenatural de cura, com a interven√ß√£o de um anjo. Pela resposta do doente se deduz que a √°gua era pouca e s√≥ usufru√≠a dela quem entrasse primeiro na piscina. Os cinco p√≥rticos correspondem tamb√©m a uma realidade hist√≥rica. Os p√≥rticos do templo eram o lugar do ensino oficial da Lei de Mois√©s, que tornava Jerusal√©m a cidadela do saber teol√≥gico-jur√≠dico do juda√≠smo. Os cinco p√≥rticos s√£o s√≠mbolos dos cinco livros da Lei: o Pentateuco.

A multid√£o enferma: - Quem √© o doente? ‚Äď √Č um homem paral√≠tico. N√£o sabemos seu nome, nem sua identidade e muito menos sua nacionalidade, pois ao redor desta piscina reuniam-se pessoas de todas as regi√Ķes circunvizinhas. N√£o tem iniciativa e nem for√ßas para entrar na piscina. Est√° impedido fisicamente e n√£o √© muito desembara√ßado mentalmente. Era um inv√°lido que mal podia movimentar-se e que, como aparecer√° em seguida, estava prostrado em cama ou maca. Este homem representa a multid√£o enferma e faminta, a mesma que Jesus ter√° compaix√£o e far√° a multiplica√ß√£o de p√£es e peixes no milagre seguinte (Jo 6,1-15). A cura que Jesus far√° n√£o se dirige somente a um indiv√≠duo, mas √© sinal de liberta√ß√£o da multid√£o de marginalizados, miser√°veis, submetidos a uma Lei morta e sem vida. Assim, se explica a violenta rea√ß√£o dos dirigentes dos judeus, que no final do relato, pensam em matar Jesus imediatamente, porque o milagre foi realizado no dia de s√°bado, o que era contr√°rio √† Lei.

A iniciativa de Jesus: - Jo√£o diz que este homem j√° estava doente h√° 38 anos. N√£o sabemos sua idade. Mas o n√ļmero 38 deve-se interpretar em sua rela√ß√£o com quarenta. Quarenta anos equivaliam a uma gera√ß√£o. No Antigo testamente tal n√ļmero era usado para indicar um per√≠odo longo e homog√™neo, por exemplo, o de um reinado, ou de um tempo de paz. Tamb√©m o povo de Deus caminhou quarenta anos pelo deserto, onde morreu toda a gera√ß√£o que saiu do Egito, sem poder chegar √† terra prometida. Neste sentido deduz-se que esta doen√ßa acompanhava a vida toda deste homem. Est√°, portanto, no final de sua vida, e √© neste momento que Jesus se aproxima dele. A dura√ß√£o dos 38 anos encontra-se em Dt 2,14, indicando o tempo que durou a caminhada do povo eleito, at√© que toda aquela gera√ß√£o foi extinta da terra. Assim, os 38 anos de enfermidade indicam que o povo est√° prestes a morrer, assim como estava este paral√≠tico. A situa√ß√£o desta multid√£o √© de quem vai morrer sem ter sa√≠do ‚Äúdo deserto‚ÄĚ, sem ter conhecida a felicidade que Deus prometia, na pessoa de Jesus. Este paral√≠tico inv√°lido, por sua vez, representa o povo submetido ao pecado e atrofiado em sua mis√©ria. Na realidade, Jerusal√©m era, j√° na √©poca de Jesus, um centro de mendigos, que, de mais a mais, se concentrava em torno do templo. Sem mais explica√ß√£o, encontra-se Jesus no meio da multid√£o dos enfermos. A multid√£o que a√≠ est√° √© o retrato de uma cidade marcada pela exclus√£o social.

Jesus faz a pergunta da vida: - Jesus contempla toda esta realidade presente na capital e eis que fixa seu olhar neste homem paral√≠tico. No meio da multid√£o se det√™m nele e n√£o nos demais. Os sinais da longa enfermidade s√£o vis√≠veis; Jesus d√°-se conta de qu√£o avan√ßado est√° o mal. Ent√£o, faz uma pergunta a este homem sem for√ßas e incapaz de movimento e a√ß√£o. √Č a chamada pergunta da vida: - ‚ÄúQueres ficar curado?‚ÄĚ ‚Äď A pergunta de Jesus abarca bem mais do que a sa√ļde corporal. Ele quer resgatar a dignidade e a integra√ß√£o interior deste paral√≠tico. Jesus se torna para este homem a √ļnica salva√ß√£o, pois ele n√£o tem fam√≠lia, n√£o tem amigos e n√£o tem ningu√©m que o ajude. Est√° no abandono total. Vive na solid√£o. Ningu√©m se interessa por ele. N√£o tem mais nenhuma perspectiva de vida. A desgra√ßa tomou conta. Jesus quer que este homem passe do des√Ęnimo para a esperan√ßa e assim possa de novo resgatar o sentido de viver.

As resist√™ncias deste paral√≠tico: - Mesmo depois que Jesus oferece a possibilidade da cura, este homem fica colocando v√°rias resist√™ncias e empecilhos. N√£o percebe a gra√ßa de Deus passando pela sua vida. Prefere a desgra√ßa ao inv√©s da recupera√ß√£o; prefere a mis√©ria dos seus trapos a recuperar sua dignidade humana; prefere ficar deitado e acomodado a levantar-se e enfrentar os desafios da vida. N√£o se ajudava para sair desta situa√ß√£o. Esperava tudo pelos outros. N√£o fazia o m√≠nimo esfor√ßo. Uma esp√©cie de in√©rcia o deixava assim. Quem perde a esperan√ßa perde tudo. A agita√ß√£o da √°gua na piscina, portanto, representa a ilus√£o do povo oprimido de encontrar rem√©dio em agita√ß√Ķes populares. √Č a armadilha de liberta√ß√£o que nunca chega a realizar-se. No tempo de Jesus eram freq√ľentes as v√£s revoltas messi√Ęnicas que surgiam na multid√£o desamparada, sem resultado algum. Colocavam a esperan√ßa na for√ßa da viol√™ncia.

A for√ßa de levantar-se novamente: - Humanamente falando, este homem n√£o tinha mais for√ßa para levantar-se e, o pior de tudo, n√£o queria levantar-se, pois n√£o fazia o m√≠nimo esfor√ßo poss√≠vel. A acomoda√ß√£o degenerativa era total. Apresenta a Jesus todas as impossibilidades. Mas Jesus n√£o se deixa vencer pelas inconsist√™ncias presentes. Oferece gratuitamente a cura em tr√™s dimens√Ķes: - ‚ÄúLevanta-te, toma a tua cama e p√Ķe-te a andar‚ÄĚ. Jesus lhe d√° a sa√ļde e com ela a capacidade de agir por si mesmo, sem depender dos outros. O paral√≠tico pode agora dispor da maca que o mantinha im√≥vel e pode caminhar aonde quiser. √Č a palavra de Jesus que cura, dando for√ßa e vida nova. Jesus n√£o o levanta, mas capacita-o para que ele mesmo se levante e caminhe. O paral√≠tico estava subjugado e privado da iniciativa pr√≥pria, agora pode dispor de si mesmo, com plena liberdade para caminhar. De homem inutilizado Jesus o faz um homem livre. √Č como morto, agora ressuscitado. √Č uma nova oportunidade de vida.

A cura que gera controv√©rsia: - Jesus n√£o chama este homem curado para ser ‚Äúseu disc√≠pulo‚ÄĚ, mas o deixa livre. Simplesmente o fez homem. Agora libertado das amarras, deve encontrar seu pr√≥prio caminho. Libertou-se de um passado que o tornava cada dia mais infeliz. O evangelho de Jo√£o n√£o diz que ele tenha acreditado. Ali√°s, Jesus, nem sequer se deu a conhecer a ele. A viola√ß√£o do descanso ser√° a pedra de esc√Ęndalo para os dirigentes judeus. Jesus n√£o levanta a quest√£o do dia festivo nem pretende fazer pol√™mica contra eles. Simplesmente usa de sua liberdade e continua sua miss√£o. Para Jesus o que conta √© o bem estar do ser humano em qualquer circunst√Ęncia. Antes ningu√©m ligava para este infeliz miser√°vel. Se tivesse morrido ningu√©m ia se importar com ele. Ali√°s, nem iam perceber sua falta, pois vivia no anonimato, no meio da mis√©ria. Agora, ele se torna o centro das aten√ß√Ķes e √© percebido, primeiramente, por estar carregando seu leito em dia de s√°bado. Os dirigentes judeus n√£o est√£o preocupados com ele e nem com a vida humana, mas com a Lei que mata e escraviza.

A segunda aproximação de Jesus: - Este homem, agora curado, não tem o senso de gratidão no coração. Não sabe agradecer. Não foi educado para as leis do amor. Agora, em Jesus, começa a brilhar o amor de Deus na vida dele. Jesus tinha escapulido. Não busca popularidade, mas somente pretende dar vida plena. Devolve a este paralítico sua força, sem exigir nada dele. O amor é dom gratuito. E pela segunda vez Jesus toma a iniciativa, quando o encontra novamente no templo, agora, porém, curado. Pede a ele para não pecar mais. Para a mentalidade da época, a doença estava associada ao pecado. As trevas não reconhecem a luz.

Textos para ora√ß√£o: - Jo√£o 5,1-18: O 3¬ļ milagre no Evangelho de Jo√£o: a cura do paral√≠tico.- Marcos 2,1-12; Lucas 5,17-26: A cura de um paral√≠tico carregado por quatro homens.- Mateus 9,1-8: A cura de um paral√≠tico.

Pe. Agenor Girardi, msc.